Botando um fim na série de SF2, a Capcom segue em frente com seu mais novo lançamento em 1995, numa nova série que prova definitivamente – para mim pelo menos – que a dita empresa de jogos tem pacto com o demônio: Street Fighter Zero.
Aconteceu assim: a Capcom estava passando perto dos seus concorrentes já capengas, quando ouviu a infeliz observação de algum diretor de produto “Finish Them“. E assim fez, desenvolvendo desde o rascunho a nova série Zero (Alpha nos EUA). Seguindo a história do jogo, esta obra do capeta se posiciona temporalmente entre Street Fighter (1) e Street Fighter 2. Além dos gráficos humilhantes para qualquer outro jogo de luta 2D da época, a jogabilidade e o sistema inovaram completamente o universo da pancadaria virtual, adicionando os três níveis de Especiais, contragolpes e meu bebezinho preferido, o Chain Combo. Sabe quando você é espancado tal qual um petista na convenção do PSDB, sendo chachoalhado no ar por todos os lados e inexplicavemente não consegue reagir? O tal sistema de Chain Combo é o culpado disso.
Tela de seleção de Street Fighter Zero.
Uma coisa que chocou os jogadores foi a tela de seleção: contava apenas com quatro conhecidos (Ryu, Ken, Chun-Li e Sagat). Os novos personagens estavam em maioria, dois originais (Nash/Charlie nos EUA e Rose), dois vindos do Final Fight (Guy e Sodom) e dois vindos da primeira versão do jogo (Adon e Birdie). Como personagens secretos estavam o comédião Dan (original), o chefão Vega (Mike Bison nos EUA) e o poderoso Gouki (Akuma nos EUA). A partir da “falta” de personagens, rolaram boatos que a Capcom se apressou e SFZ veio prematuro, e a mídia especializada (olhaaa!) já acalmava os viciados sinalizando a vinda de Street Fighter Zero 2.
O segundo lançamento da série veio mesmo conforme anunciado, oito meses após seu irmão mais novo. Pra quem tinha achado que SFZ era um ótimo jogo e havia superado de longe a concorrência, SFZ2 fez a Dona Midway pensar direitinho, requentar a janta das crianças e partir definitivamente para jogos de luta 3D. A Capcom promoveu significantes melhorias na jogabilidade, no sistema de jogo implantado em SFZ, na arte gráfica e animação, no equilíbrio entre os personagens e ampliou a trupe, disponibilizando agora Dan, Gouki e Vega como não-secretos, Dhalsim e Zangief retornando de SF2, Gen retornando de SF, Rolento do Final Fight e a original Sakura, além dos secretos Shin Ryu e Shin Gouki.
Tela de seleção de Street Fighter Zero 2.
Após dois anos de sucesso absoluto, a Capcom poderia ter ficado quieta e terminado a série Zero por aqui. Mas não. Como eu já disse, eles insistem em tornar público o fato de que Street Fighter é fruto de um pacto com o demônio.

Street Fighter Zero 3 foi lançado em 1998 e sepultou qualquer outra tentativa de produzir um jogo 2D de luta para sempre. Agora além de escolher o personagem, o jogador podia escolher o estilo de luta, cada um com suas peculiaridades. O fluxo de jogo foi drasticamente alterado e beira a perfeição, apoiado num complexo sistema de regras e leis internas, o que obviamente tornou o jogo absurdamente equilibrado e levou a jogabilidade a um nível nunca antes imaginado num jogo de luta. Para melhorar a situação o cardápio de personagens foi ampliado novamente, com Blanka, Cammy, Edmond Honda, Balrog (Vega nos EUA) e Mike Bison (Balrog nos EUA) retornando de SF2, o prisioneiro Cody de Final Fight e os originais Karin, Rainbow Mika, Juni e Juli. Claro que isso foi um prato cheio para os jogadores, que estudaram frame por frame do jogo e desenvolveram técnicas de luta e táticas em um ritmo impressionante.
Tela de seleção de Street Fighter Zero 3, versão com personagens adicionais.
No final de 1999, SFZ3 era o jogo ideal para competição e a Capcom não perdeu tempo – patrocinou campeonatos e promoveu o encontro dos campeões continentais para levar um nome ao topo do mundo de SF: Daigo Umehara. O japa é oficialmente o campeão mundial de SFZ3. Conforme o tempo passou e atualizações de consoles domésticos foram produzidas, algumas adições de personagens foram feitas sem sucesso em algumas poucas versões, pois elas iam contra o equilíbrio e fluxo de jogo estabelecido em SFZ3.
Animação de abertura da luta entre Ken (Modo Z-ISM) e Ryu (Modo X-ISM) em SFZ3.
Após ocupar durante muitos anos o lugar de jogo de luta supremo dos campeonatos mundiais, ele começou a ser acompanhado de crossovers (jogos de luta que misturam universos de personagens) e devido a cena de jogadores profissionais tornar-se repetitiva e invencível, e praticamente as táticas e estratégias terem chegado ao seu limite, houve uma tentativa de substituição por Street Fighter 3: Third Strike. Passados poucos campeonatos o jogo não manteve sua soberania e foi substituido pelo saudoso Super Street Fighter 2 Turbo, uma vez que a volta de SFZ3 não seria viável.

Por falar em Street Fighter 3, a série Zero teve sua continuação antes mesmo de terminar, com o lançamento de SF3: The New Generation em 1997 onde apenas Ryu e Ken retornaram, contando com novos personagens, novos estilos de luta e uma adição no sistema de luta. Porém o fluxo de jogo era completamente diferente da série Zero e guardava muita semelhança com jogos da SNK. Ele teve duas continuações, SF3: Second Impact ainda em 1997 e SF3: Third Strike em 1999. Em paralelo à terceira parte da série que usava a nova máquina de arcade CPS-3 (que teoricamente rodaria jogos de luta 3D) foi lançada em 1996 uma nova série 3D, chamada Street Fighter EX. Após diversas continuações e não chegando nem perto do sucesso da sua irmã 2D, essa versão foi descontinuada.
Hoje a Capcom não fala mais em Street Fighter. E pra dizer a verdade, não creio que os jogadores true de SF esperem também algo como Street Fighter 4 ou continuações 3D. Mas eu aposto o que for possível que, caso eles lancem uma continuação para Street Fighter Zero 3, os campeonatos mundiais de jogos de luta 2D terão um novo nome sob os holofotes: Street Fighter Zero 4.