Myles e menos uma vida
Era uma tarde pálida, cinza, quando Myles desceu do carro. Ele nunca fechava a porta antes que seu parceiro, o oriental Kisho, — que odiava quando lhe chamavam de quícho ao invés de quichô — fechasse a outra, no lado do passageiro. Nada menos que uma providência para se safar de eventuais emergências.
Myles já foi um homem assim — preocupado com tudo e todos à sua volta, impossibilitado de dar um passo em qualquer direção sem pensar, refletir e planejar diversas ações, precauções e respostas. Como ele é hoje, não convém falar. Esta é uma história do passado deste homem, por mais que o passado nunca realmente passe ou abandone nossas vidas, sendo para sempre parte integrante dela.
Kisho nunca se acostumaria com os blecautes temporários de Myles, e não hesitou ao bater no teto do carro para acordar o distante parceiro:
— Myles, acorda! Temos apenas alguns minutos de folga.
Myles piscou e sua expressão de urgência, como se estivesse assustado (quem o conhecia bem, como Kisho, sabia que aquela expressão não queria dizer que Myles estivesse nem um pouco assustado), assaltou-lhe o rosto. Seu olhar fixo em Kisho durante alguns segundos fez o parceiro oriental pensar em como uma pessoa que enfrentasse seu destino frente a Myles, poderia ter sonhos na vida seguinte que não fossem transformados em pesadelos, inundados por dezenas de réplicas daquele olhar assustador. Na verdade, o olhar era como um lobo em pele de cordeiro (assim como Myles): quem não o conhecia achava-o inocente, calmo e quase tolo. Mas aquele olhar tinha uma tradução assustadora, que poucos eram capazes de entender.
Sem trocar uma palavra, a dupla tomou suas posições de forma natural, porém exata. O oriental se afastou alguns metros e ocultou-se no beco, sem perder Myles de vista. Ele estava encostado calmamente no carro, pés na calçada e cigarro aceso nos lábios. Seus olhos estavam apertados como se estivessem enfrentando o mais brilhante dos sóis, porém miravam fixamente o vidro da vitrine em frente, perdidos em algum ponto entre o apagado reflexo de Myles e os produtos em exposição atrás do vidro.
Após minutos de silêncio total, Myles torceu rapidamente o rosto ao escutar uma voz peculiar vinda de uma porta do escritório do andar superior, cuja saída ficava ao lado da loja. O relativamente jovem alvo de Myles agora já cruzava o seu olhar perdido e profundo, mudando-o de foco. Os olhos afiados seguiram o jovem, que após alguns metros percebeu que havia alguém saindo do beco. O primeiro momento da esquiva educada transformou-se num congelamento aterrorizado.
— Olá — disse Kisho, como se estivesse cansado da conversa logo na primeira palavra. Myles já estava se aproximando das costas do jovem, quando disse:
— Eu não queria que as coisas chegassem a este ponto, Diego — colocando uma mão no ombro do rapaz, que olhou assustado para trás.
— Como vocês sabem meu nome? — indagou Diego, querendo recuperar sua postura séria e controladora.
Antes que Diego pudesse perceber o que estava acontecendo, ele encontrou-se dentro do beco, apertado contra a parede pelo pescoço. O homem oriental de cabelo comprido à sua frente apertava impiedosamente seu pescoço, porém apenas o bastante para intimidá-lo e evitar que saísse qualquer tipo de som da boca de sua presa. Com calma, Kisho ordenou:
— Se eu te soltar e você emitir qualquer som, você não viverá mais dez segundos, entendido?
Diego apenas mexeu os olhos — que já ardiam com o sangue acumulado neles — para dar sua resposta afirmativa.
— As coisas não precisavam ser assim. — ouviu Myles falando, que provavelmente estava atrás dele. Para Diego, tudo aquilo agora parecia apenas um pesadelo, e apenas esperava que acordasse logo. Mas isso não era motivo para soltar qualquer som, afinal, ele ainda queria sua vida nos próximos dez segundos.
Antes de dormir o sono eterno, Diego apenas sentiu algo gelado encostando-se em sua nuca, seguido de um breve estalo que selou o fim sua vida.
Myles e Kisho entreolharam-se e saíram do beco que ainda ecoava timidamente o estouro do tiro, entrando silenciosamente no carro. Myles, já dirigindo, soltou uma afirmação com ironia:
— Você mentiu para o rapaz, Kisho.
— Não, Myles. Foi você quem se esqueceu de contar até dez. — Kisho respondeu friamente.