Cabe antes de mais nada definir música, que é nada além da sucessão de sons e silêncio organizada ao longo do tempo. Ela é praticada e conhecida desde a pré-história e confunde-se com a própria cultura em sua mais básica definição, portanto estamos falando de algo bem mais velho que informática, filosofia ou política. Colocando os pingos nos is, a música sendo uma combinação de elementos sonoros, inclui por conseqüência em sua essência variações do som tais como altura, duração, timbre e intensidade, variações estas que podem ocorrer sequencialmente e/ou simultaneamente, gerando assim os conceitos de ritmo, melodia e harmonia – apenas no seu sentido de organização temporal, pois podemos encontrar harmonias ruidosas e arritmias propositais na música.
E é exatamente aqui que começarei a soltar o verbo. Fazer música é organizar as variações do som, produzido através de inúmeros meios. O compositor, de qualquer maneira, tem um motivo para compor sua música. E invariavelmente o compositor tem também um objetivo, uma vez que tem um motivo. Tirando de pauta a discussão sobre música ser arte ou não, ocorre que a música é um sinal enviado pelo emissor, através de um canal e código, a um receptor. Cabe então ao receptor, utilizando-se principalmente do sentido da audição, interpretar a mensagem.
Neste cenário, não podemos então nos surpreender que a música constituída de pobre e tacanha organização, organização esta copiada e resumida cada vez mais, seja a mensagem preferida de milhões e milhões de receptores hoje em dia. A percepção musical não é mais estimulada nem disciplinada, gerando em conseqüência infinitos ouvidos despreparados para interpretar qualquer organização mais requintada ou complexa. E convenhamos, sabendo da complexidade e requinte de nossos sentimentos e idéias, está para nascer o compositor que conseguirá transpor sua essência humana, sua vontade de comunicar, para dentro de uma música pobre, simplória e descompromissada.
Não estou dizendo que a música simples seja lixo sonoro. Estou dizendo que ouvir apenas e exclusivamente música simples é ter um cérebro digno de se jogar no lixo, isso sim. Mas o que seria isso se não um reflexo da massificação, densificação e simplificação de todo o significado nos tempos modernos?
Que me desculpe a oposição, mas música de elevador é boa para elevador, o qual nem um par de ouvidos tem. Eu quero mais é música, compromissada, verdadeira, cheia de propósito e vontade de comunicar. Vestir um bando de homens de meia-idade como adolescentes babacas, plagiar velhas e cansadas organizações de variações de som (leia-se música) e ainda por cima adicionar letras tão babacas, velhas, cansadas e plagiadas quanto a música que as embalam é chamar a todos nossos ouvidos de pinico.
Mas a maioria de nós não se importa. A maioria é incapaz de interpretar ou até ler meia página de um bom livro, então o que podemos esperar que ela ouvirá ou interpretará de meio minuto da Sinfonia nº40 em Sol Menor composta por Mozart? Veja bem, não estou dizendo que uma pessoa deve ouvir apenas música erudita do período Clássico, mas não precisamos entregarmo-nos ao fedor da decomposição dos defuntos da música popular moderna, aos restos comerciais reciclados e produzidos a custo baixíssimo, jogados para dentro de nossos ouvidos.
Em suma, tenho duas perguntas, a primeira um tanto quanto retórica:
1) Você come lixo? Não, você respeita sua boca e seu aparelho digestivo.
2) Então por quê, diabos, alguém se prestaria a alimentar sua mente, através de seus ouvidos, com lixo?
Quem sanar minha dúvida ganhará minha eterna gratidão.