Um qualquer
Tonto e nauseado, ele estava procurando o homem que poderia lhe dizer algumas palavras úteis sobre sua condição. Era subhumano. Sentia-se no limiar da subexistência, da sobrevivência em nível mental. Pensou que era de se admirar que algumas outras pessoas fossem submetidas a condições deveras ásperas e ainda assim, conseguiam manter-se sãs. Ou pelo menos pareciam sãs aos seus olhos.
O turbilhão de pensamentos não abandonava sua cabeça, e por estar há tanto tempo presente, começara a atrapalhar seus sentidos. Não confiava mais se realmente sentia com as pontas dos dedos, se tremia por medo ou frio. Não confiava mais no que via, pois seus próprios olhos pareciam estar sofrendo uma falha de comunicação com seu cérebro. Tudo tinha se tornado surreal demais e para dentro de si, tinha contraído um nível absurdo de realidade que talvez fosse a causa de estranheza para com o mundo exterior.
Não conseguia mais lembrar a última vez que descansou. A última vez que esteve fora do campo de batalha. A última vez que se alimentou. Mas não deixaria desabar o corpo, mantendo conforme fosse possível as pernas rígidas, caminhando. Não queria parar. Algo no interior mais obscuro e inatingível de sua mente lhe dizia para não parar, pois não conseguiria voltar a andar. Como um sinal da salvação, avistou no horizonte o semblante de um homem. Caminhou com dificuldade até ele, aumentando sua velocidade.
- Preciso falar contigo.
- O que houve?
- Vou continuar lutando.
- Há lutas que não se pode ganhar.
- Então nasci derrotado?
- Qual é a sua preocupação? Morrer?
- Falhar.
- Você esteve falhando há um bom tempo.
- Eu sei.
- Portanto siga em frente.
- Mas é tudo tão pouco, tudo vazio.
O homem parte bruscamente. A terra transpira e distorce o vulto já distante, como se houvesse água em pleno deserto. Talvez estivesse submerso, talvez não. Não conversava mais com seu corpo. Em torpor, sentia que algo além de si mesmo movia suas pernas, como se tentasse forçar-lhe a alcançar algum objetivo. Mas os objetivos já tinham se esvaído há tempos. Toda a traição, a falta de propósito e a indiferença generalizada bastaram para destruir um castelo, derrubar o rei e extingüir o vilarejo.
O último sobrevivente caminhava atordoado pelo deserto, sonhando acordado com suas derrotas e pensamentos, memórias e cicatrizes. Talvez seja tudo pouco demais no fim, pensou. Mas uma centelha de crença no desconhecido, em tudo aquilo que está por vir e talvez nunca possa existir, animava sua carcaça orgânica. Não percebia mais nada, pois notou que na verdade não há o que perceber. Tudo à sua volta está vazio, e encontrar-se com o vazio significava viver.
Talvez fosse tempo de partir. De desistir. De acreditar. De tornar-se vazio. De compartilhar a ilusão com toda aquela coisa que nunca conseguira nomear, entender ou visualizar. Mas seu coração não permitia.
Quem vive pelo coração, morre pelo coração.